RETRATO DE FAMÍLIA

(“O Pelicano" de A. Strindberg e "Tatuagem" de Dea Loher) | enc. Manuel Tur (co-produção TNSJ / apoio GDA / TeCA) l 2017  

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“Enquanto houver cenas de família haverá questões a colocar ao mundo.” O projeto Retrato de Família alicerça-se nesta convicção formulada por Roland Barthes, laborando sobre a realidade familiar, a casa, a esfera doméstica, lugar que Gaston Bachelard, em La Poètique de l’espace, descreveu como “um cosmos na plena aceção do termo”.

Do século XIX até aos dias de hoje, muitos e bem diversos têm sido os trilhos abertos pela escrita dramática (tanto do ponto de vista formal como do ponto de vista temático), mas algumas das suas mais originais vozes têm encontrado no reduto familiar o seu ponto de convergência: de August Strindberg a Eugene O’Neill e Lars Norén, de Henrik Ibsen e Anton Tchékhov a Nelson Rodrigues… Esta convergência decorre tanto da inescapável centralidade da instituição familiar nas sociedades humanas (instituição que parece, nos tempos recentes, conhecer mutações ou novas formas consideradas impensáveis há apenas meio século atrás) como na própria natureza do acontecimento teatral, cuja aparente exiguidade espacial é suscetível de uma ampliação infinita. “Para irradiar e nos penetrar, o teatro tem necessidade de um espaço fechado”, fez notar o ensaísta e dramaturgo Jean-Pierre Sarrazac numa obra, Théâtres intimes, que estuda dramaturgias modernas e contemporâneas em que as noções de íntimo/cósmico e eu/mundo são postas em tensão.

A primeira parte deste Retrato de Família, coproduzida pelo TNSJ, consiste na apresentação de dois textos compostos com quase cem anos de distância: O Pelicano, de Strindberg, e Tatuagem, de Dea Loher, obras dramáticas que nos lançam, de modos diversos, no epicentro de realidades familiares que, em vez de configurarem o último bastião da afetividade e da segurança, constituem sufocantes e opressivos espaços de enclausuramento.

Começamos com uma das peças de câmara com que Strindberg fundou essa dramaturgia da subjetividade a que chamou “teatro íntimo” (“A palavra ‘íntimo’ será a palavra de ordem da nossa companhia”, anunciava o manifesto do dramaturgo sueco, também de 1907), confrontando este seminal clássico da nossa modernidade com um texto de uma das afirmativas vozes do panorama teatral europeu contemporâneo, Dea Loher, como parece provar tanto a sucessão de prémios literários que vêm distinguindo a obra da dramaturga nascida na década de sessenta como a veloz circulação internacional dos seus textos.

Para além de todo um instigante jogo de correspondências que produzirá nos espectadores, a apresentação sequencial destes dois textos no mesmo cenário permite experimentar registos interpretativos e modalidades de representação a que as obras, nas suas irrecusáveis diferenças, se abrem e favorecem. Ao mesmo tempo, este confronto dos dois textos possibilita lançar um novo olhar sobre as formas mediante as quais essa dramaturgia da subjetividade parece manter o seu vigor.

Algumas particularidades caracterizam o projeto Retrato de Família: antes de mais, o termo família conhece aqui uma dupla aplicação – família é o tema, isto é, a problemática que permite articular textos dramáticos de épocas e correntes distintas, mas o conceito designa ao mesmo tempo um núcleo fixo de criadores. Trata-se, por assim dizer, de constituir uma espécie de família para cuidar das famílias retratadas nestes dois textos, que, a despeito das suas diferenças de estrutura e sensibilidade, revelam uma desafiante simetria. Esta reversibilidade é intensificada pelo facto de estas famílias irem habitar, nos dois tempos, uma mesma casa – leia-se, cenário, espaço de representação, que o trabalho de encenação procura interpretar diversamente.

Tradução

"O Pelicano" Gastão Cruz

"Tatuagem" José Maria Vieira Mendes 

encenação | Manuel Tur

cenografia | Ana Gormicho

figurinos | Anita Gonçalves

desenho de luz | Francisco Tavares Teles

desenho de som e sonoplastia | Joel Azevedo

direção de produção | Rosa Lopes Dias

 

interpretação

O Pelicano

Ângela Marques A Mãe (Elise)

Iris Cayatte A Filha (Gerda)

Romi Soares A Criada (Margret)

Simão Do Vale O Genro (Axel)

Tiago Correia O Filho (Fredrik)

Tatuagem

Ângela Marques Juliane Wucht ou Juli dos Cães (A Mãe)

Belisa Branças Lulu Wucht (A Filha Mais Nova)

Eduardo Breda Paul Würde (Flower-Paul)

Maria Quintelas Anita Wucht (A Filha Mais Velha)

Rodrigo Santos Wolfgang Wucht ou Wolf do Forno (O Pai)

 

coprodução | A Turma, TNSJ

apoio | Fundação GDA

 

duração | 60 minutos (O Pelicano), 70 minutos (Tatuagem)

classificação etária | M/16 anos

Rua da Fábrica Social s/n, 4000-201 Porto

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